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quinta-feira, 26 de setembro de 2013

VERSOS ÍNTIMOS


 
Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

(Augusto dos Anjos)

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

SOLITÁRIO



Como um fantasma que se refugia
Na solidão da natureza morta,
Por trás dos ermos túmulos, um dia,
Eu fui refugiar-me à tua porta!

Fazia frio e o frio que fazia
Não era esse que a carne nos contorta...
Cortava assim como em carniçaria
O aço das facas incisivas corta!

Mas tu não vieste ver minha Desgraça!
E eu saí, como quem tudo repele,
-- Velho caixão a carregar destroços --

Levando apenas na tumba carcaça
O pergaminho singular da pele
E o chocalho fatídico dos ossos!

Augusto dos Anjos

sábado, 14 de setembro de 2013

JOSÉ

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde? (drummond)

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Bilhete



Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...

Mário Quintana
 
 
#BemEu

quinta-feira, 11 de julho de 2013

QUANDO CHEGAR



"Quando chegar aos 30
serei uma mulher de verdade
nem Amélia nem ninguém
um belo futuro pela frente
e um pouco mais de calma talvez

e quando chegar aos 50
serei livre, linda e forte
terei gente boa ao lado
saberei um pouco mais do amor
e da vida quem sabe

e quando chegar aos 90
já sem força, sem futuro, sem idade
vou fazer uma festa de prazer
convidar todos que amei
registrar tudo que sei
e morrer de saudade."

Martha Medeiros

segunda-feira, 15 de abril de 2013

O Último Poema




Assim eu quereria o meu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

Manoel Bandeira

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Retrato

 

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,

tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,

tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida a minha face?

(Cecília Meireles)

terça-feira, 26 de junho de 2012

Meus tempos de faculdade


Lembro como se fosse hoje
Os tempos da faculdade
Chegava o dia da prova
Era uma calamidade
Era um branco da gota
E por mais que fizesse força
O saber ficava na vontade

Momento de maior suspense
Aquela folha que desemborcava
Enrriba da mesa só o lápis
E uma borracha é que ficava,
E quem fosse pego colando
Da sala saia rezando
Pois na quarta prova já estava.

Tinha umas questão
Que nó no juízo dava
Dessas de dá um arrupêi
Que só de lê se aguniava
Só a pergunta tinha
Um tanto de cinco linhas
Eu já me desesperava.

Essas eram mais fichinha
Resolvia com um pé nas costa,
Mas o pior ainda vinha
Pudia peparar a aposta.
Apôis no final eu lia
Que a professora pedia:
Justifique sua resposta.

Eu pensava comigo:
Féla da gaita, inesperiêcia
Fía duma égua parida
Deixe de saliência!
Perdeste o amor a vida?
Como é que ainda duvida
Da minha catilogência?

Mesmo assim eu respondia
Num desespero sem fim
Aqueles que não sabia
Vinha pedir cola pra mim
A resposta eu passava
Com sorte, as vez acertava
Ou então se lascava tudim

Essa prova marcou bastante
Por um motivo inusitado
A sorte foi ser retirante
E o azar foi escalado
Pois a cola que passei
Na sala deu um arrudei
E foi zero pra todo lado

O desgraçado do colão
Invés de ficar quieto
Deu uma de sabichão
Se achando todo esperto
Passou a cola pra geral
As prova ficaro tudo igual
E nosso destino tava incerto.

Ficamos em recuperação
Por causa do desaforado
Tudo tachado de burro
Por causa desse amostrado.
Mas o assunto é um infeliz
É como o ditado diz:
“O que é dele tá guardado”

Chegou o dia da quarta prova
A professora deu as instrução
Para falta de qualquer aluno
Alertou que não tinha perdão
A menos que por grave acidente,
Doença ou morte de parente,
Outra desculpa num tinha não.

Foi aí que o peste a mão levantou
Olhou pra cara da professora
E então o descarado perguntou:
Professora não me leve a mal
Mas dentre os motivos justificado
Posso incluir estar muito cansado
Por atividade sexual?

Minino foi uma mundiçada
Da bagunça, foi o apogeu
A classe explodiu em gargalhada
A professora nem um pio deu.
Tão logo o silêncio voltou
A professora pro palhaço olhou
E então ela respondeu:

Esse não é motivo justificado
Para sua falta nesta avaliação
A prova vai ser de marcar
Você pode usar a outra mão
Ou se não puder sentar
Não precisa se preocupar
Responder de pé num ofende não.

(Daniel Cortez - 2012)

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Do desejo


Essa coisa profunda emanada da alma
Aquece o corpo lá dentro, lança longe a calma.
Põe o brilho no olhar, tira o sono da noite
Corta a carne macia, faz da palavra um açoite.
Quanto mais proibido, obscuro, escondido
Mais o desejo aflora, o “eu” fica perdido...

Cai em pranto, vem a febre,
Enfim o pânico fremente
Se exposto, talvez se acalme
Quanto mais silenciado,
O malvado consome a gente.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Para sempre


Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento. 

Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.


Poema: Carlos Drummond de Andrade


segunda-feira, 7 de maio de 2012

Mãe


Mãe... São três letras apenas
As desse nome bendito:
Também o Céu tem três letras...
E nelas cabe o infinito.
Para louvar nossa mãe,
Todo o bem que se disse
Nunca há de ser tão grande
Como o bem que ela nos quer...
Palavra tão pequenina,
Bem sabem os lábios meus
Que és do tamanho do Céu
E apenas menor que Deus!
 (Mário Quintana)

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Amar...

"Amar cria raiz, sim. Cria, independentemente de ser verbalizado. Basta sentir o amor para que fiquemos dependentes dele, uma dependência boa, daquilo que nos faz sentir vivos."
Martha Medeiros

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Por Daniel Cortez


O vento frio da solidão
Desliza na pele tal uma navalha
Impiedosamente, rasga a alma,
Retalha, carrega seus pedaços
Deixando para trás apenas um corpo
Lançado ao esquecimento
Maltratado por sombras de pensamentos
e um coração estraçalhado
Largado na escuridão que me habita
Na solidão que me agride,
Onde apenas o som dos meus passos
Me fazem companhia
e as incertezas me sufocam.
Daniel Cortez/ 2002 

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

NO AMOR O CORPO FALA.

No amor seu corpo falava
Feliz seus olhos sorriam
Hoje seus gestos enviam
Seu pedido de desculpa
Como uma “mea culpa”
Seu silêncio se declara
Numa atitude clara
Deixa transparecer
Estar também a sofrer
Pois feriu a quem amara.
Quando de corpos desnudos
Nossos toques conversavam
Os gemidos declaravam
Loucuras, amor, paixão
E num adeus sem razão
Fugiu da cumplicidade
Não acreditei ser verdade
Até pensei estar sonhando
E por não vê-la voltando
Caí na realidade.

Emudece de vergonha
Desvias o seu olhar
Até quando adiar
Esse encontro previsível
O erro é compreensível
Já tomei uma decisão
Consultei meu coração
Se ela voltar o que digo?
- Ofereça o ombro amigo
Declarando seu perdão.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

FICA COMIGO

Esta noite fica comigo
Esquece o que ficou lá fora
Esquece o breu da noite
e fica rendido ao meu abraço

Vem ficar do meu lado
e sonhar acordado
Vem partilhar o meu leito
Enrola-te na minha pele
crepita por dentro de mim

Sente o meu corpo pulsar
de encontro ao teu
sente o meu carinho
sente como te envolvo e seduzo
como de ti abuso
sempre que em ti me encosto

Sente o meu rosto
descendo sobre o teu
sente as minhas pálpebras
que se fecham
sempre que a tua boca as roça
e ficam adormecidas
por entre os teus lábios

Fica comigo...
por favor não te vás...
Não agora que a noite
ficou mais escura
e eu sinto a amargura
invadir-me por inteiro

Fica comigo e adormece
esquece
o que ficou lá fora

Amanhã tudo estará igual
no mesmo lugar
A manhã raiará de novo
com o mesmo esplendor

e o meu corpo
e todo o meu ser
suave despertará
pela melodia do teu amor

O amor que me ofereceste
na noite em que tudo esqueceste
para ficares apenas comigo...


(São Reis  -  20Jan2012)

sábado, 26 de novembro de 2011

Sedução Real

Menina faceira
dos lábios de mel
porém malvada
beleza cruel
encanta fascina
seduz com olhar
a pele arrepia
só de imaginar
seu toque seu cheiro
seu gosto de amor
desejo de veras
teu corpo sedutor.

Se você soubesse
 o que trago aqui dentro
 uma força tão grande
um forte sentimento
talvez não maltratasse
esse meu coração
já não sei se é verdade
 ou se é pura ilusão
você me seduz
me faz acreditar 
sozinho não consigo
 parar de sonhar.

 Sonhar com seus lábios
seus beijos ardentes
 sonhar com o destino
 unindo agente
 de qualquer forma
 não sei se é possível
mas sei que só você
 me leva ao paraíso
e esse desejo
essa força aqui dentro
 corrói o meu peito
invade o pensamento.

Já não tenho medo
 mas ainda
 sou um sonhador
 embora sonhado
não veja que
 o tempo passou
 e o sonho toma forma
 me fazendo transpirar
ah, sentir você
vai além do sonhar. 

Isso seria um sonho?
 não consigo entender
sinto sua presença
mas então cadê você?
 essa minha angustia
não para de machucar
então vem de pressa
 e me faz despertar
 mas se isso
for só um sonho
não venha
prefiro não acordar!!!

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Eram só rabiscos...

Em apenas três cores te pintei
No mais insano sonho de desejo
Seduzido pelo ardente beijo
Virou realidade aquilo que desenhei.

Apenas preto, cinza e branco
Três cores que ali estavam
Que no meu íntimo, num recanto
Onde sonhos se desenhavam.

Contemplando tal figura
Que aos poucos vida ganhava
Do papel deixava de ser gravura
E como mulher já respirava.

Escolheu para se pintar
Entre várias cores que existiam
Apenas o vermelho vivo
Para seus lábios que ardiam

Foi um sonho, um relance
Lapsos de desejo reprimido
Como utopia fora de alcance
Um sonho que não pode ser vivido

Daniel Cortez, 2011 (em vinte versos)

VAIDADE

Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade

Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguém cá neste mundo...

Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,

E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho...E não sou nada!...  
(Florbela Espanca)

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Simplesmente Mulher

Teus braços
Fortes braços
Num longo abraço
A me envolver
Teus lábios
Doces lábios
Fonte de beijos
Muitos beijos, pra me aquecer
Quanta coisa emana de ti, doce criatura
Amor...carinho...ternura
Tudo que me liga a teu ser, mulher
Tia...mãe...avó...
Irmã...neta...filha...
Guerreira...companheira...
Tu que me namoras, me compreendes
Que me incentivas, me repreendes
E jamais me deixas só.
Tu que és dar e receber,
Que com a mesma humildade
Sabes perdoar e esquecer.
Santa ou pecadora
Ingênua ou sedutora
Não importa! Serás sempre uma rainha
Uma intercessora...uma fada madrinha...
Aquela que na minha aflição, chamo
Laura...Priscila...Mary...Maria José...
A todas, admiro e amo
Santas criaturas
Anjos de candura
Simplesmente mulher!

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Meu fim

Poesia, aonde foi?
Não pulsas em mim
abandonaste meu peito
real desrespeito,
de um poeta, o fim.

Rima aonde vais?
Não me deixe também
do nada foi embora
se esvaiu, e agora?
Só me resta o além.

Os versos, cadê?
Aonde estão?
Procuro e não acho
nem mesmo um pedaço
que me sirva de chão.

Meu lápis onde está?
Aonde foi o papel?
Sem poesia, rima e verso
tiraram meu universo
roubaram-me o céu.

Daniel Cortez/ 2011